Em 30 segundos
- Na deficiência visual, a baixa visão pede ampliação, contraste e boa iluminação, e a cegueira pede tato e áudio: Braille, materiais em relevo, leitor de tela e descrição oral de tudo o que é visual.
- Na surdez, a Libras (Língua Brasileira de Sinais) é uma língua completa, e o português escrito é a segunda língua do estudante surdo sinalizante. A educação bilíngue de surdos está na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) desde a Lei 14.191/2021. Nunca use "surdo-mudo".
- Na deficiência física, as barreiras são de acessibilidade (espaço, mobiliário, materiais, comunicação), e não de capacidade de aprender. A tecnologia assistiva e o profissional de apoio, quando indicado no estudo de caso, fazem parte da solução.
Deficiência visual: baixa visão e cegueira
A legislação brasileira (Decreto 5.296/2004) usa a acuidade visual no melhor olho, com a melhor correção óptica, para diferenciar as duas situações. Em palavras simples:
- Baixa visão: o estudante enxerga, mas com muita dificuldade, mesmo usando óculos. Ele usa a visão que tem (a visão residual), com apoio de ampliação, contraste e luz adequada.
- Cegueira: a visão é muito reduzida ou inexistente, e o estudante aprende principalmente pelo tato e pela audição.
Braille é um sistema de escrita e leitura tátil, formado por combinações de seis pontos em relevo. O ensino do Braille e do uso de recursos como reglete e punção (instrumentos de escrita manual em Braille) e soroban (ábaco para cálculo) cabe ao AEE (Atendimento Educacional Especializado). Mas é na sala comum que esses recursos são usados todos os dias.
Descrição de imagens é transformar em palavras o que é visual: o gráfico, o mapa, a foto, o que está escrito no quadro. A audiodescrição é a versão estruturada disso, muito usada em vídeos, filmes e eventos. Na sala, você faz descrição o tempo todo, se se lembrar de narrar o que mostra.
- Fale o que escreve no quadro e evite "isto aqui" e "aquilo ali": diga "a fórmula da área, no canto esquerdo".
- Descreva imagens, gráficos e vídeos: o que é, o que mostra e o que importa para a aula.
- Baixa visão: material ampliado, fonte sem serifa, alto contraste (preto no branco ou amarelo no preto), lugar com boa luz e sem reflexo, perto do quadro, mais tempo para ler.
- Cegueira: material em Braille ou digital acessível para o leitor de tela, maquetes e mapas em relevo, objetos reais para tocar.
- Envie o material com antecedência ao AEE, para transcrição ou adaptação.
- Mantenha o layout da sala estável e avise quando algo mudar de lugar. Portas, nem fechadas nem abertas pela metade.
- Avaliação: prova em Braille, ampliada ou digital, ledor quando necessário e tempo adicional.
Surdez: uma questão de língua
Para o Decreto 5.626/2005, pessoa surda é aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Libras. A Lei 10.436/2002 reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão: é um sistema linguístico de natureza visual-motora, com gramática própria, e não mímica nem "português sinalizado". A mesma lei estabelece que a Libras não substitui a modalidade escrita da língua portuguesa.
Por isso, para o estudante surdo que usa Libras, o português escrito é uma segunda língua. É como um estudante ouvinte lendo em inglês: ele pode entender o conteúdo e ainda assim escrever com estrutura de frase diferente. O Decreto 5.626/2005 orienta corrigir as provas escritas valorizando o aspecto semântico (o sentido) e reconhecendo essa singularidade linguística no aspecto formal.
A Lei 14.191/2021 incluiu na LDB a educação bilíngue de surdos como modalidade: Libras como primeira língua e português escrito como segunda, em escolas bilíngues, classes bilíngues, escolas comuns ou polos, desde a educação infantil. A escolha pela modalidade cabe ao estudante ou à família, sem prejuízo do direito de estudar em escolas regulares. Para os surdos oralizados, a lei garante também o acesso a tecnologias assistivas.
Nem toda pessoa com perda auditiva usa Libras. Há estudantes que usam aparelho auditivo ou implante coclear, se comunicam pela fala e fazem leitura labial. Cada estudante precisa ser conhecido em sua própria forma de comunicação.
O tradutor e intérprete de Libras e Língua Portuguesa faz a mediação linguística. A função dele é distinta da função docente (Decreto 5.626/2005, art. 14). Quem ensina, planeja e avalia é você. Fale diretamente com o estudante, e não com o intérprete ("diga a ele que…"). Compartilhe o planejamento com antecedência, para que o intérprete prepare os sinais de termos técnicos.
- Fale de frente, com o rosto visível e boa luz. Não fale de costas, escrevendo no quadro.
- Uma pessoa fala de cada vez. Organize turnos nas discussões.
- Espere o tempo da interpretação antes de seguir ou de pedir a resposta.
- Use muito apoio visual: imagens, esquemas, palavras-chave escritas, demonstrações.
- Vídeos com legenda e, se possível, janela de Libras. Avise mudanças por escrito também.
- Avisos sonoros (sinal, alarme, chamada) precisam de equivalente visual.
- Avaliação: enunciados objetivos, possibilidade de resposta em Libras registrada em vídeo, correção que valorize o sentido.
Deficiência física
A deficiência física envolve alterações em partes do corpo que comprometem a função física: mobilidade, postura, coordenação dos movimentos. Entre as situações descritas no Decreto 5.296/2004 estão paraplegia, tetraplegia, hemiplegia, amputação ou ausência de membro, paralisia cerebral e nanismo. Ter uma deficiência física não diz nada, por si, sobre a capacidade de aprender. Mas, se a escrita manual ou a fala forem afetadas, o estudante precisa de outros meios para mostrar o que sabe.
As barreiras mais comuns são de acessibilidade: escadas sem rampa, banheiro inacessível, carteira que não encaixa a cadeira de rodas, materiais pequenos demais para manusear, atividades (como a educação física ou o passeio) planejadas sem pensar em quem se move de outro jeito.
Tecnologia assistiva, segundo a LBI (Lei Brasileira de Inclusão, Lei 13.146/2015), são produtos, equipamentos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que promovem a funcionalidade, a autonomia e a participação. Na escola, isso inclui desde engrossadores de lápis, tesoura adaptada e plano inclinado até teclado e mouse adaptados, acionadores e software de predição de texto. Quando a fala é afetada, a CAA (Comunicação Aumentativa e Alternativa), como pranchas com figuras, cartões ou aplicativos, garante que o estudante se expresse. Em 2025, a LBI passou a prever expressamente sistemas de CAA de baixa tecnologia no AEE para estudantes com necessidades complexas de comunicação (Lei 15.249/2025).
- Circulação livre: corredores entre as carteiras, material ao alcance, mesa na altura certa.
- Pergunte ao estudante como ele prefere ser ajudado antes de empurrar a cadeira ou pegar o material.
- Recursos para a escrita: engrossador, plano inclinado, prancha com velcro, computador ou tablet, escriba.
- Mais tempo para tarefas motoras, e respostas que não dependam da escrita manual quando ela não for o alvo.
- Planeje a educação física, o recreio e os passeios com acessibilidade desde o início, e não como "adaptação de última hora".
- Se houver profissional de apoio (locomoção, higiene, alimentação), combine a atuação dele com base no PEI (Plano Educacional Individualizado).
Surdocegueira e deficiência múltipla
A surdocegueira é a combinação de perdas visual e auditiva, em graus variados. Ela exige formas de comunicação próprias, como Libras tátil, alfabeto manual na palma da mão e objetos de referência. A LBI prevê a disponibilização de guias-intérpretes, profissionais que fazem a comunicação e a orientação da pessoa surdocega. A deficiência múltipla é a associação de duas ou mais deficiências. Nos dois casos, o planejamento é muito individualizado e depende de um trabalho próximo entre o professor regente, o AEE, a família e os profissionais de apoio.
O que evitar
- Usar "surdo-mudo" (pessoas surdas não são mudas: têm voz e se comunicam em Libras), "ceguinho", "aleijado", "preso à cadeira de rodas".
- Expressões capacitistas, como "o pior cego é aquele que não quer ver" ou "dar uma de João sem braço".
- Gritar ou falar devagar demais com o estudante surdo, ou falar com o acompanhante em vez de falar com o estudante.
- Dispensar o estudante de atividades ("ele não precisa fazer educação física") em vez de torná-las acessíveis.
- Usar imagens como único meio de informação, sem descrição.
Mitos × fatos
A ligação com o PEI e o AEE
Para estes estudantes, o plano começa pelos recursos de acesso. O estudo de caso e o PAEE (Plano de Atendimento Educacional Especializado) registram de quais recursos de tecnologia assistiva e comunicação alternativa o estudante precisa e se ele precisa de profissional de apoio, tradutor-intérprete de Libras ou guia-intérprete. O PEI traz as medidas de acessibilidade curricular, didática e avaliativa para cada disciplina. O AEE ensina o uso desses recursos (Braille, soroban, Libras, CAA, tecnologia assistiva). A LBI (art. 28) prevê a oferta desse ensino, e as escolas privadas também são obrigadas a oferecer esses apoios, sem cobrar valores adicionais. Na sala comum, o seu papel é garantir que esses recursos estejam presentes em todas as aulas.
Para pensar na sua turma
Repasse mentalmente a sua aula de ontem. Quanto da informação chegou só pela visão (quadro, slides, imagens)? E só pela audição (explicação oral, vídeo sem legenda)? Que pequena mudança garantiria um segundo canal para cada informação importante?